Não sou jurássica; muito menos contra os avanços tecnológicos que têm nos engolido, palmo a palmo, na velocidade da luz… Procuro apenas manter o equilíbrio para preservar a sanidade.
Sou do tempo das linhas telefônicas fixas nas residencias, nas empresas, nos comércios, nos consultórios. Tempo em que um único telefone atendia a todos os moradores de uma casa, todos os funcionários de um escritório, sendo, em lugares maiores, utilizados ramais, mas que se acoplavam à mesma linha.
Telefonar era algo que exigia responsabilidade e idade. Isso mesmo! Crianças não faziam uso do aparelho e, só conversavam com quem estava do outro lado se fossem convidadas, o que raramente acontecia.
As chamadas tinham horários estabelecidos, pois dependendo do horário a tarifa a ser cobrada podia ser mais cara ou mais barata.
Geralmente era uma única pessoa que atendia os telefonemas e passavam para as pessoas solicitadas.
Nem todos os lares tinham uma linha telefônica, pois era artigo luxuoso, de valor elevado, portanto somente os mais abastados gozavam desse benefício.
Meus avós maternos foram os primeiros, no bairro onde moravam, a ter a tal modernidade, na década de 70.
Eu achava maravilhoso escutar a campainha do aparelho a invadir os cômodos da casa no seu TRIMMMMMM…. TRIMMMMM…
Corrria para perto do meu avô para vê-lo atender a pessoa que estava do outro lado e por pura falta de conhecimento e também inocência reservada aos pequenos, ficava a imaginar, como uma pessoa, grande como meu avô, podia caber dentro de algo pequeno… Sem contar que nunca fui dada ao funcionamento das traquitanas.
Ninguém ligava depois das oito da noite, a não ser se houvesse uma tragédia familiar ou mundial que implicasse em risco de morte. Muito menos antes do sol raiar, às seis da manhã, ainda que as pessoas acordassem muito cedo.
As conversas tinham objetivos precisos e concisos quando eram realizadas por telefone, ainda que existisses as Candinhas de plantão, mesmo essas sabiam que telefonar era coisa séria.
Fomos ter um aparelho na nossa casa, na casa dos meus pais, quando eu já estava com vinte anos.
A aquisição foi uma fortuna. Papai pagou em muitas prestações, pois ao se adquirir uma linha, adquiria-se também ações da empresa de telefonia. Sem contar que era preciso ficar numa fila de espera por anos.
No fim da década de 1990, com muito esforço e economia compramos um aparelho móvel, mas que mesmo assim ficava em casa. Era um aparelho enorme da MOTOROLA , o qual todos chamavam de TIJOLORA, porque remetia ao aspecto de um tijolo – quadrado e pesado.
Em 2004, já, parcialmente estabelecida financeiramente, quer dizer, podendo comprar alguns bens materiais sem precisar da ajuda de alguém, comprei meu primeiro celular, pequenino, prateado e discreto, mas sem as funções que um aparelho possui hoje em dia. Não havia câmera fotográfica, as mensagens não tinham emojis, ou seja, era usado para facilitar a comunicação sem desviar as atenções, sem perder o foco, sem causar, sem tumultuar.
Logo a seguir pode-se imaginar o que passou a contecer… Câmeras de última geração embutidas no aparelho, mensagens de voz, figurinhas, emojis, sms… até chegar ao WhatsApp.
Foi aí que tudo desandou.
As Candinha perderam de longe para os burbúrios em massa, para a comunicação compulsiva.
Hoje estamos à mostra.
Atualmente, usando o eufemismo do corpo, estamos literalmente com o derrière de fora, para todo mundo ver.
O celular virou um apêncice imprescindível. Com ele se registra as cenas mais escabrosas. As mensagens de textos são usadas como garantia, ainda que apresentadas de forma truncada, para conseguir o que se quer, a hora que quiser, no lugar que quiser, ainda que isso implique, muitas vezes, em acabar com a reputação do próximo sem ponderações.
Conheço amizades antigas que se estilhaçaram por conta da falta de filtro que tomou conta das relações na atual conjuntura.
A maioria leva sua extensão corporal para qualquer lugar que vá… também literalmente, qualquer lugar.
As mensagens chegam aos borbotões e em horários contínuos. Há um interstício sem trégua – trabalho, diversão, médico, cabelereiro, missa, cama, mesa, banho… P-R-I-V-A-D-A… Sabe aquela mensagem de voz que você recebe e ouve a descarga do vaso sanitário como trilha sonora?
A cabeça não para. Os dedos não param. Os olhos se cansam. Os ouvidos saturam…
Hoje as mesuras desapareceram.
Todos sabem tudo sobre a vida de todos, inclusive as particularidades que deveriam ser preservadas por questão de bom senso.
Avalanche de coisas desnecessárias são enviadas a todo instante. Grupos da família, do trabalho, dos melhores amigos, da infância, da faculdade, da escola dos filhos e também da sala de aula dos filhos ( se você tiver quatro filhos serão grupos e subgrupos), do futebol, da igreja, do pilates e tantos outros que seria uma ficha corrida de dar inveja ao maior miliante do universo.
O tempo perdeu-se em algum lugar do passado…
Na verdade, perdeu-se a noção de civilidade, de bom tom, de etiqueta, de saber que o meu lugar termina onde começa o lugar do outro e temos que ter respeito para não causar invasões, porque, por mais inocentes que elas sejam, elas ferem… sem contar que invasões podem ser devastadoramente perigosas.
Eu ainda desligo meu celular nos fins de semana. Não levo meu celular à mesa, pois as refeições são sagradas. Quando estou com um amigo, estou com ele e me recuso atender as outras pessoas que se sentem no direito de brincar de DEUS, na petulância de se acharem onipresente, onisciente e onipotente.
Banheiro é lugar íntimo – intrinsecamente, ÍNTIMO. Ninguém precisa saber quando faço uso dele. Nem eu preciso saber quando meus amigos precisam excretarem seus dejetos.
Eu ainda percebo, que para mim, em certos momentos, o celular está como forma de um aparelho telefônico de tempos atrás.
Eu ainda conservo certas mesuras.
Tenho horário para ligar e não ligo, sem que seja convidada, para pessoas que desconheço.
É claro que todas essas formas de contatos facilitam o tempo e a vida de muitos, mas também fazem com que o tempo se estrangule e perca seu desenrolar tão precioso.
Eu ainda aviso, antecipadamente a minha visita na casa dos amigos…
Ainda espero pelos convites com um pouco de formalidade…
Eu nunca chego de mãos vazias…
Ainda aguardo ser anunciada…
Não passo por cima de hierarquias…
Eu ainda tenho muitas reservas, por questão de elegância e de preservação.
Expor-se demais pode implicar em danos colaterais muitas vezes irreversíveis.
É como diz a música da Clarissa onde a dor não é o alvo, mas uma inevitável consequência, ocasionada por uma falta de limite do outro.
Realmente eu me pergunto: estamos vivendo o ÁPICE da deselegância ou uma invasão total de PRIVACIDADE…?




