Minha filha caçula se casou há alguns dias. Ela e o noivo, na flor dos seus vinte e nove
anos. Fomos ao cartório eu e meu esposo, os pais do futuro cônjuge, testemunhas e
mais uns seis familiares. Ritual curioso. Enfim. Dos profissionais do estabelecimento,
poucas palavras, dos demais, menos ainda. O ritual pede a leitura de uma ata e que os
noivos troquem juras ditadas que confirmem seu desejo de união. É sério, porém risível
em alguns aspectos. Não sei explicar. Simples, rápido e estão casados.
É a primeira vez que “caso” uma filha. A outra já havia se casado sem aviso,
planejamento, ou “contrato”. Mas já se descasou. Um casamento breve, rompido com
certa simplicidade. Os papeis é que nos complicam, pois para quem se casa em
cartório, o divórcio não é nada simples. Pelo menos é o que parece.
Casar pensando em separação não tem sentido, claro que não. Mas há de se ter claras
certas questões, já que tantos são os divórcios, em média, mais de 40% no Brasil.
O texto é para dizer que me chamou a atenção o fato de o divórcio ser tão complicado
diante de uma “cerimônia” de união formal tão curta e simples.
Penso que todos sabemos que o que importa ali não é o ritual da leitura, a troca de
alianças, a assinatura dos noivos e testemunhas, nem o papel que comprova a união.
O que importa é o “contrato afetivo” entre o casal e, em alguma medida, o que nós,
presentes, conhecemos de cada um deles, juntos e separados.
No papel de mãe, sogra e testemunha, diria que os dois possuem os ingredientes para
um matrimônio feliz, ainda que estejamos vivendo um momento de crise conceitual e
que um bom casamento para alguém não corresponda ao de outro.
O meu conceito de bom matrimônio é aquele em que o casal se une de forma madura,
consciente dos traços de personalidade que são comuns e divergentes. É importante
que possuam objetivos, hábitos e projetos compartilhados (reformulados a qualquer
momento) e que possuam tempo e condição de exercitar sua individualidade e
independência.
No mais, seria bom que também que se preparassem para as impermanências da vida.
Pois nos meus cinquenta anos, confesso que são desafiadoras. Algo para o qual não
estava preparada e que me assusta reiteradamente. Constatar que o “para sempre”
não existe é uma dura lição. E inconformada me pergunto porquê rotinas, ideais,
projetos, e pessoas têm mesmo que nos deixar, mudar ou partir de modo definitivo.
Ainda estou tentando exercitar o desapego, mas se não nos apegamos a nada, o que
resta? Restam as memórias. Resta o espírito. Por vezes os filhos e netos. Resta o auto
cuidado, o amor próprio, a transformação e o autoconhecimento. Estes dois últimos,
sim, eternos.
Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly




