Em algum lugar de mim, 03 de março de 1845
Caríssimo,
Há muito as palavras têm sido minhas constantes companheiras. Por elas passeio e vou construindo, calmamente o diário dos meus dias.
Elas tecem longas estradas e compõem territórios tão exclusivos e pertinentes a mim que somente os reconhecem aqueles que, por curiosidade ou sensibilidade, se arriscam a tocar mundos alheios.
As palavras têm composto meus dias de glória e de dissabor e, para esse último eu rascunho, com cautela, cada linha… procuro os vocábulos mais amenos, os eufemismos mais delicados, para que doa menos o peito.
As letras não me deixam sufocar o que tem doído tanto.
Horas abafadas que só passam quando mergulho no que não se pode tocar.
Assim consigo escrever-te, meu querido, vorazmente, como quem tem pressa de lhe dizer o quanto é triste os instantes de sombras… são quase infinitos.
Hoje o peito está sufocado e latejante!
Hoje o abraço será apertado e longo e o beijo mais denso.
Deus nos guarde das nossas amarguras!
Penélope




