Algum lugar de mim, 20 de outubro de 1928.
Caríssimo,
As horas voam e em cada mudar dos ponteiros a VIDA se concretiza, muitas vezes de maneira quase irreal…
A minha vida tem sido um apanhado de momentos e sintomas que fogem da realidade.
Talvez seja uma reflexão profunda sobre a efemeridade do tempo e a profundidade humana que nunca conseguimos abarcar.
Os dias, assim como são as horas, passam fugazes, muitas vezes sem deixar vestígios de luz ou de sombras e vão nos pegando de surpresa pela velocidade com que os fatos acontecem.
Também estou passando e, talvez, sem deixar vestígios ou migalhas de pão que deixem marcas no meu caminho.
A cada segundo a vida respira… acontece e não é apenas um plano, ela se torna real através das experiências, escolhas e momentos vividos.
Quero e preciso desacelerar…
O tempo é a medida da mudança, e a vida é a concretização dessa mesma mudança constante.
Tique-taque!
Os ponteiros não param.
E eu preciso de instantes suspensos e silenciosos para pensar em ti.
Meu coração bate na mesma proporção da velocidade do tempo.
Palpita freneticamente as batidas que se misturam com o caminhar dos ponteiros.
Eu me arrasto.
Agarro ou penduro-me nas hastes metálicas que circulam uma circunferência por meio de engrenagens desconhecidas.
O relógio, dono do tempo!
O relógio tentando ser dono de mim…
E eu querendo circular em torno de ti, floridamente, e invadir-te como águas de clepsidras…
Quero, em sincronia, ajustar-me aos teus ponteiros e unissonamente poder existir, nas intermitências de horas mais parcimoniosas.
Quero amar – num tempo de morosidades e delicadezas.
Um leve beijo e um breve abraço
Penélope




