BALANÇO DE FIM DE ANO…

Comecei a trabalhar cedo.

Alguns meses antes de completar 14 anos fui contratada, por uma prima, para trabalhar no seu escritório de contabilidade, onde excerci, por quase dois anos, a função de guarda-livros, ou como dizem hoje, com mais pompa – ” bookkeeper“. Isso mesmo, era responsável pelo registro diário e com organização precisa de 7 empresas. O trabalho era duro e minucioso e, minha caligrafia era perfeita para o serviço.

Nessa época as canetas já eram de uma modernidade incrível. Ganhei de presente uma caneta Sheaffer Rollerball, porém, por ser a carga de tinta fluída, às vezes, com a pressão maior das mãos, haviam momentos em que a grafia ficava mais grossa, todavia não precisava do mata-borrão, assim como precisaram meus antecessores.

Não quis seguir a carreira de contadora, pois estava fazendo o primeiro ano de magistério e era professora a profissão escolhida por mim.

Logo após esse período consegui uma vaga de atendente de balcão numa papelaria enorme que havia, na minha cidade e, lá se foram quase mais dois anos de emprego.

Confesso que meu problema visual atrapalhava muito. Na verdade, eu era alvo constante de monitoramento, ou seja, tudo o que acontecia de errado era por conta dos meus olhos e, se não fossem eles, diziam que era.

Não havia um só dia que não saia com o coração apertado e a garganta cheia de dor por segurar a vontade de chorar que eu tinha… Mas resistia. Era ponto de honra passar por todos os obstáculos que apareciam. Sem contar que eu tinha muito orgulho e, para ser mais sincera, uma linha bem acentuada de vaidade. Descrevendo melhor a situação, tinha uma necessidade própria de provar para mim que eu dava conta de fazer o que achavam que eu não iria conseguir.

Eu era perfeccionista. Desenvolvia padrões de arrumação de vitrines e prateleiras e, por conta disso, no segundo mês de emprego fui designada para trabalhar no almoxarifado.

Lembro-me que passei dois finais de ano nessa papelaria e, portanto, fiz dois balanços de fim de ano que funcionava da seguinte maneira: no primeiro dia de trabalho, após encerrar o ano, logo no dia dois de janeiro, o comércio não abria porque todas as lojas fechavam para balanço. No meu caso, nesse dia, o pessoal do amoxarifado ficava à toa, pois as minhas arrumações propiciavam um balanço automático, porque eu descobri que, se fizesse as anotações dos produtos que restavam naquele último dia, em suas prateleiras, com antecedência, era só passar os valores numéricos para o serviço de escritório que lançava nos livros contábeis. E olha que eu detesto matemática.

Quando saí da papelaria muita gente chorou, principalmente os meninos do almoxarifado.

Essa arrumação toda me acompanhou por toda uma vida.

Quando passei a dar aulas usei essa organização e antecipação nos meus diários de classe, no planejamento das aulas. Uma sistematização meticulosa que, eu sabia, dava nos nervos de muitos professores.

Passados todos esses anos, afrouxei as rédeas.

Continuo muito organizada, mas aprendi a fazer umas baguncinhas libertadoras.

Apesar dessas pequenas desarrumações, ainda carrego, em algum lugar do passado, resquícios de coisas certas que tenho levado para outras partes da vida.

Trago comigo uma observação contínua, que não cessa, pois para organizar é preciso observar antes de executar ou agir.

É preciso saber calcular, antecipadamente, para acomodar tudo no seu devido lugar, mesmo que não haja a necessidade de ser tudo tão meticuloso como antes.

No balaço desse fim de ano, ainda que não esteja mais num escritório contábil ou num almoxarifado, preocupo em registrar a minha frequência vibratória.

Policio-me, transcrevendo manualmente cada montante ativo ou passivo dos meus sentimentos, das minhas relações, dos meus enganos e desenganos e, haja mata-borrão para limpar os excessos.

O saldo final, nem sempre, é positivo.

Muitas vezes falta capital de giro ou, o que entra não é compatível com o que sai ou, o que entrou não dá conta de de suprir as mazelas do cotidiano.

No meu livro contábil já não tenho pesado tanto mais as minhas mãos e, confesso que tenho sonegado uma coisa aqui e outra ali.

Os registros são mais suaves.

Aprendi a fluir com mais leveza em tempos de “vacas magras”.

Creio que a pior contabilidade está em tempos que ainda estão por vir, pois, por mais otimista que eu seja, vejo a todo instante o quanto o avançar da idade nos cobra e nos limita, por conta de uma conta que para muitos não fecha.

Mas o importante, enquanto esse novo tempo que está por vir não chega, é viver o instante presente, ainda que esse presente não traga consigo lindos laços de fita.

É viver a plenitude sabendo que, após cada piscar de olhos, tudo já é passado.

O futuro é incerto e, sua cadência, totalmente descompassada.

Aprendi, nos mesmos registros contábeis, a jamais me envolver com pessoas que não vibram na mesma frequência ou com valores opostos aos meus.

A vida me ensinou que não há pacto entre lobos e cordeiros, pois caso haja, mais cedo ou mais tarde o cordeiro sucumbirá e será devorado por seu algoz.

E olha que os verdugos estão bem mais perto do que pensamos.

Os livros contábeis hoje são artigos expostos em museus.

A modernidade pede passagem.

Sofisticados softwares tomam conta de infinitas informações.

Milhares de aplicativos são lançados diariamente para facilitar a vida substancialmente perdida na liquidez dos tempos modernos.

O comércio não para mais um dia porque os balanços são efetuados em tempo real.

Enquanto isso eu sigo, coomo guardadora dos meus livros, sem precisar prestar ajustes de contas a ninguém, a não ser comigo mesma, fazendo uso de anotações mais eufemistas, pois passei a me amar mais e não exigir tanto da minha caneta rollerball, que ainda tenho.

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