Dentro de mim existe e, sempre existirá um lugar encantado, mas isso não quer dizer que sou propensa à irrealidade. Não! Muito pelo contrário. Esse encantamento é apenas um mecanismo de autodefesa.
Os dois últimos anos não foram fáceis. A degeneração da saúde da minha mãe, cada dia mais acentuada, a exaustão das minhas fragilidades humanas e também desumanas.
Um ato de generosidade que foi parar no banco dos réus…
Tive que refazer rotas, ainda que involuntariamente, traçadas com tanto carinho.
Desenvolvi uma tristeza tão grande e um descrédito maior ainda, por muitas pessoas, várias delas bem próximas e, por serem próximas, tinham informações suficientes e me conheciam palmo a palmo, para fazerem o que fizeram.
Decepções que, em certos momentos, se sobrepuseram ao meu arsenal de encantamentos e de supostas magias, tão pueris quanto um bebê que adormece no regaço de sua mãe.
Ergui fortalezas e um calabouço, discretamente, à minha volta.
“LAR É ONDE ESTÁ NOSSO CORAÇÃO” – meu corpo é o meu LAR e abriga meu coração com ternura.
Além do meu corpo repensei também meu LAR CONCRETO, feito de tijolos, areia, cimento e AMOR.
Enclausurei-me!
Recolhi-me, como quem se recolhe num monastério ou convento.
As treliças da clausura me protegem.
Desenvolvi uma fobia enorme aos meios sociais.
Criei um forte, onde estou segura, amparada e por ele permeio, como uma alma solitária e silenciosa.
Meu LAR tem me dado PAZ e ACONCHEGO.
Nesse retiro intermitente tenho vibrado com mais consciência, respirado com mais leveza e compreendido que estar só nem sempre é de todo um mal.
Dentro do meu LAR meus pés estão sempre descalços e não correm o risco de serem cortados por navalhas.
Dentro do meu LAR as luzes são mais difusas e acolhedoras.
Dentro do meu LAR tenho a autonomia de receber quem eu quero.
Dentro do meu LAR a certeza da proteção inviolável.
E eu tenho amado o sentido SAGRADO e VERDADEIRO de abrigo.
Meu novo ano acontecerá com as luzes das ESTRELAS e com o brilho amoroso da LUA.
O NOVO TEMPO que se aproxima será renovado com o manto compassivo do MENINO JESUS e, ainda que eu não seja tão religiosa, seguirei nos descampados da FÉ e da ESPERANÇA.
Há renovações necessárias e tantas outras irrenováveis.
Receberei cada mudança com abnegação e permanecerei em clausura o quanto for preciso.
Para refletir há que se ter por companhia a solitude e o silêncio.
Sair de cena é tão corajoso quanto permanecer atuando.
Recolher-se na penumbra requer olhos atentos.
E depois de tudo haverá dias mais vindouros, onde pequeno miosótis se abrirão em vastos campos, junto das imaculadas margaridas.
Talvez as portas do LAR, aquele que abriga meu coração, se abrirão e nos salões iluminados da minha residência se estenda um grande baile, uma festa uníssona de bailados e canções.
Não ressurgirei das cinzas, como a FÊNIX, mas me erguerei na ponta dos pés, como uma bailarina, mergulhada em pote de purpurina, pronta para retomar, de onde parei.





Respostas de 10
Malu, você está no melhor lugar. Não existe nada como o nosso Lar. Com “L” maiúsculo.
Não é todo mundo que tem um Lar. Tem, no máximo, uma casa. Não importa se própria ou alugada. Mas que nunca será um Lar.
É isso mesmo, Madeira – muitas pessoas nunca irão saber o que é um LAR. E esse afastamento social tem me feito tão bem. Hoje me permito estar somente com quem vale a pena e, em lugares que não há AMOR não me demoro…
Que incrível Malu, renascer, reinventar, sempre!
E com todo brilho que temos direito. Grata pelo carinho da sua leitura, meu amigo!
Linda reflexão! As dores durante a vida nos moldam, não para sempre, mas para vivermos momentos diferentes.
Também não é covardia refugiar-se. Eu mesma carrego dores que, quando olho para elas, doem de forma tão intensa que as guardo imediatamente.
O falecimento de minha mãe, ocorrido quando a maternidade ainda era algo novo em minha vida, é uma delas; eu precisava tanto dela ainda! Essa dor escancara-se diariamente quando olho para minhas filhas e percebo que não as acompanharei para sempre.
Mas há também as dores das desilusões; elas deixaram marcas como estilhaços de mágoas e medos.
As crises vêm e vão. Minha casa também virou um refúgio e não gosto de compartilhá-lo com ninguém além da minha família e dos meus gatos e cachorros.
Quando saio, visto-me de coragem, finjo força e tento não demonstrar que a fragilidade é vivenciada rotineiramente, seja no canto da cama ou durante o banho quente, onde a água abafa os sons que acompanham as minhas lágrimas.
Que lindo depoimento, Aletheia! É bem isso mesmo. E assim vamos caminhando na esperança de que sempre tem algo melhor a espreitar-nos.
Grata pelo carinho da leitura e das tuas impressões deixadas.
Olá, querida Malu! Identifiquei-me profundamente com mais esse texto profundo que você compartilha. Esse LAR é inviolável. É somente nesse lugar que podemos decidir quando fechar ou abrir as portas. Desejo que o novo ano seja de muita luz, alegria e paz! Obrigada por nos brindar com seu carinho e talento. Bjs 🌹 ❤️
E não é que, enquanto eu escrevia, lembrei-me de ti e das tuas cinfissões confiadas a mim, na nossa Feira Literária. Uma melancolia que só quem sente sabe o que é e sabe respeitar as dores dos outros e também nos respeitarmos quanto às nossas dores.
Que a ALEGRIA, a PAZ e a SAÚDE façam festa ao ANO NOVO que chegará em breve. Grata pelo carinho!
Oi, Malu!
Texto profundo e muito reflexivo. Sua escrita é inspiradora. Lar, lugar de repouso, de recompor as energias e ativar a criatividade!
Parabéns!
Feliz Ano Novo!
Agradeço o carinho da sua leitura, amorinha e que no novo ano nosso lar possa nos acolher ainda mais, com muita serenidade e o verdadeiro amor daqueles que nos admiram.